domingo, 3 de abril de 2011

Sou um texto

«Sou um texto que quer levantar-se e permanecer no fundo. Dias, terras, espaços. Ecos irisados. Escrevo como se quisesse desenhar uma linha de equilíbrio e repouso. A mão, ou a sombra da mão, acaricia uma lenta e profunda cabeleira. No fragor anónimo, de silêncio a silêncio, encontro a leve plenitude da alegria, totalidades marejadas por sombras e espumas, vozes e aromas incandescentes. Penetro numa matéria móvel entre fragmentos desesperados. Perco-me na areia dos nomes, detenho-me nas pedras pacientes e próximas. Eis que a água corre clara e leve através dos seus próprios dedos. Talvez alguém tenha perdido uma cor muito simples, ou o sangue de um sonho.»

António Ramos Rosa, in O deus nu(lo)

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